11 de abril de 2018


Filmes vistos que interessem destacar:

(1915) Regeneration - Raoul Walsh
(1926) Mat - Vsevolod Pudovkin
(1928) Potomok Chingis-Khana - Vsevolod Pudovkin
(1930) Au bonheur des dames - Julien Duvivier
(2017) A Legvidámabb Barakk - Noémi Varga
(2017) Toivon tuolla puolen - Aki Kaurismäki
(1987) The Dead - John Huston
(1980) Moskva slezam ne verit - Vladimir Menshov
(2002) Tiexi qu - Wang Bing
(2008) Caiyou riji - Wang Bing
(2014) Fu yu zi - Wang Bing
(2017) Colo - Teresa Villaverde
(2015) Bunker - Sandro Aguilar
(1951) Circle of Danger - Jacques Tourneur
(2016) São Jorge - Marco Martins
(2017) Frost - Sharunas Bartas
(2004) 2046 - Wong Kar-Wai
(2011) Sem Abrigo - José Oliveira, Marta Ramos, Mário Fernandes
(2012) Pai Natal - José Oliveira
(1941) Hideko no shashô-san - Mikio Naruse
(1966) Le Père Noël a les yeus bleus - Jean Eustache
(1974) Mes Petites Amoureuses - Jean Eustache
(1967) Marketa Lazarová - Frantisek Vlácil 
(2017) Nelyubov - Andrey Zvyagintsev
(1943) This Land is Mine - Jean Renoir
(1945) The Southerner - Jean Renoir
(1955) French Cancan - Jean Renoir
(2017) Logan - James Mangold
(2016) La mort de Louis XIV - Albert Serra
(1952) Scandal Sheet - Phil Karlson
(1955) 5 Against the House - Phil Karlson
(1963) La baie des anges - Jacques Demy
(2017) Three Billboards Outside Ebbing, Missouri - Martin McDonagh
(2017) Darkest Hour - Joe Wright
(2017) Churchill - Jonathan Teplitzky
(1957) China Gate - Samuel Fuller
(1963) McLintock! - Andrew V. McLaglen
(1945) Scarlet Street - Fritz Lang

Revisões:

(2000) No Quarto da Vanda - Pedro Costa
(1962) La jetée - Chris Marker

31 de janeiro de 2018

Dunkirk e Blade Runner 2049 vistos. Conclusões:

Achei o Dunkirk deplorável, nada que me espante vindo do suposto génio de Hollywood Mr. Nolan… arrasta-se e arrasta-se num turbilhão de facilitismos, clichés e arrojos técnicos e narrativos que em nada inovam no cinema (até porque já nos seus filmes anteriores os vimos). Quanto ao Blade Runner, é pretensiosismo atrás de pretensiosismo, é noir e não é, é espectáculo visual e sonoro e pouco mais, é Harrison Ford com uns míseros minutos no final a mostrar aos playboyzinhos do Gosling e do Leto o que é representar… enfim, é desinteressante e desnecessário.
L'enfance nue (1968, Pialat)
Mes petites amoureuses (1974, Eustache)


22 de dezembro de 2017

Últimos filmes vistos, duas coisas primorosas, tempo do mudo… ápice do cinema, sumptuosidade total… actualíssimos mas mais que isso, coisas que hoje em dia não se fazem nem há audácia ou destreza nem competência para tal porque o cinema se direcionou para outro caminho. Um registro do que me pareceram:



Regeneration do Walsh é uma fábula ou um conto moral a que tantos cineastas foram “beber”… é provavelmente um dos primeiros filmes de gangsters e um portento quer na narrativa quer no ritmo da acção. Tragédia (como também o é o outro filme), mutação das almas e do ser, a fisicalidade ou a sua mutação que rompe fronteiras (e/ou classes sociais)… a história já é batida nos dias de hoje, conta a história de Owen, um garoto que irá crescer e se tornar homem, inserido num ambiente familiar disfuncional (pai bêbedo e que “arreia” na mulher a “torto e a direito” - mais tarde, já homem, salvará um bebé em condições semelhantes… ironia das ironias, tudo não faz mais senão parte da “regeneration” do título) e de miserabilidade que, ainda em tenra idade, foge do meio/família para iniciar o seu percurso em direcção à criminalidade. No imo desta história de Walsh está a efabulação na sua “regeneration”, na moralidade e no amor donde esta resulta bem como na tragicidade que irá despontar no final. Owen é, talvez, um tipo de personificação da Maria Madalena (ou Madalena arrependida) da Bíblia, ou dum filho pródigo que depois de “mergulhado” no pecado ou, neste caso, no mal (e aqui representado pelos gangs, pela máfia ou coisa parecida) retorna a “casa” – o bem neste caso – numa regeneração impulsionada pelo amor e pela candura de Marie, ainda que para isso seja posto à prova numa situação de lealdade e de “retribuição” para com um dos antigos companheiros. A grande moralidade do filme de Walsh reside nessa mesma “regeneration” do título do filme, na possibilidade do mal voltar a ser bem e de que ninguém está completamente “perdido”. Nessa narrativa do percurso do miúdo que se tornou homem e chefe dum gangue como resultado do meio ambiente (e social), emerge a plasticidade dos personagens e as sombras do mal para serem ofuscadas pela luz do bem.



Mat, ou Mãe, de Pudovkin revela-se-nos ainda mais negro que o filme de Walsh, aqui a tragicidade é total e brutal. Filme obrigatório onde Pudovkin (eternizado ao lado de nomes como Eisenstein, Dovzhenko, Barnet ou Vertov) inova nas técnicas de montagem e nos ângulos de câmara, Mat é a história duma mãe que enfrenta a miserabilidade e a crueldade do feudalismo imperial (ou czarista) russo (ano de 1905) imerge nas sombras do medo e da repressão do poder sobre o povo/proletariado… Pudovkin retrata-o bem naqueles primeiros minutos iniciais, a bebida é o escape para os resignados, o primitivismo possui-os e a frieza ou a crueldade ou a dureza com que são tratados pelos “senhores” espelha-se no seio familiar e na forma como se trata a mulher, as resignadas. Mat parte duma greve laboral falhada e denunciada (está-se no epicentro da transformação política e social marxista que culminaria nas revoluções de 1905 e 1915) que resulta na morte do pai de Pavel Vlasov (o filho), reacionário e opositor do regime que participara dessa mesma greve. Perseguido, denunciado pelos “resignados” (os fura-greves que independentemente da classe social ainda continuam obedientes e fiéis ao poder), a mãe do título, numa tentativa de salvar o filho, entrega-o e “condena-o”, como mais tarde se “condenará” a si própria naquilo que Pudovkin nos mostra ser uma evolução da tomada de consciência das classes ou da classe operária. Mat nada mais é que um retracto da revolução falhada de 1905 pelo olhar dessa Mãe representativa de toda uma classe social, uma reflexão sobre a consciência (a obtenção desta) ou o surgimento da urgente sublevação duma classe social (proletariado) face ao imperialismo e à sua opressão/tirania como coisa necessária e iminente para a sobrevivência deste… Obrigatório.

29 de novembro de 2017

Filmes vistos a registar:

(1937) The Awful Truth - Leo McCarey
(1964) Matrimonio all'italiana - Vittorio De Sica
(1973) Una breve vacanza - Vittorio De Sica
(1967) Da Uomo a Uomo - Giulio Petroni
(1964) Nikutai no mon - Seijun Suzuki
(1956) Mio figlio Nerone - Steno
(1956) 7th Cavalry - Joseph H. Lewis
(1952) Androcoles and the Lion - Nicholas Ray
(1955) Run for Cover - Nicholas Ray
(1958) Wind Across The Everglades - Nicholas Ray
(1978) La Chambre Verte - François Truffaut
(1985) Sans toit ni loi - Agnès Varda
(1961) Paris Blues - Martin Ritt
(1987) Oci Ciornie - Nikita Mikhalkov
(2016) Café Society - Woody Allen
(2013) Krugovi - Srdan Golubovic
(1990) Mo' Better Blues - Spike Lee
(2014) Torneranno i prati - Ermanno Olmi
(1963) I Fidanzati - Ermanno Olmi
(2011) Il villaggio di cartone - Ermanno Olmi
(2014) The Look of Silence - Joshua Oppenheimer
(2009) Tong dao - Wang Bing
(2007) La masseria delle allodole - Paolo e Vittorio Taviani
(1990) Korczak - Andrzej Wajda
(1961) Accattone - Pier Paolo Pasolini
(1968) The Sergeant - John Flynn
(2003) Los Angeles Plays Itself - Thom Andersen
(1977) Hitler, ein Film aus Deutschland - Hans-Jürgen Syberberg
(1982) Parsifal - Hans-Jürgen Syberberg
(2015) Rak ti Khon Kaen - Apichatpong Weerasethakul

Revisões:
(1929) Chelovek s kino-apparatom - Dziga Vertov
(1964) Bande à Part - Jean-Luc Godard
(1965) Pierrot le fou - Jean-Luc Godard
(1975) Benilde ou a Virgem Mãe - Manuel de Oliveira
(1963) Acto de Primavera - Manuel de Oliveira
(1968) Teorema - Pier Paolo Pasolini

22 de outubro de 2017

17 de setembro de 2017



O silêncio das trincheiras…

Em Torneranno i prati de Olmi somos confrontados com o silêncio ensurdecedor e abrupto e com a tranquilidade apavorante numas trincheiras da primeira guerra mundial. Olmi homenageia o seu pai e faz do silêncio um meio aterrador e angustiante para aqueles soldados italianos imersos no medo, na febre, na fome e no frio da imensidão da neve gélida que cobre todo aquele vale e aqueles montes. A elipse de toda uma guerra, de toda uma angústia e pavor aterrorizante dá-se bem naquele início ao som dum canto dum soldado esperançoso que lá para o final recusa esse mesmo canto justificando a ausência de felicidade no coração “Para cantar precisa estar feliz. E se não tem o coração feliz, ninguém te escuta.”. Olmi filma a tragicidade e a brutalidade duma guerra, incidida nas trincheiras onde o silêncio, a espera e a morte caminham lado a lado com a serenidade que assombra e atormenta a alma humana. Mais tarde virão os tiros dos canhões e dos morteiros, as mortes e o horror da guerra a interromper essa tranquilidade e o silêncio das trincheiras…

Torneranno i prati é um filme-lamento onde o silêncio faz mais barulho que o som estrondoso dos canhões e dos morteiros... as trincheiras dos austro-húngaros não estão longe mas nunca as vemos, não interessam… o filme de Olmi é uma glorificação daqueles soldados italianos entrincheirados que resistem e esperam (uns esperançosos outros resignados) pelo fim da guerra ou pela morte que os assombra naquela e noutras tantas noites. O silêncio é angustiante e Olmi filma-o quase sem cor ou numa saturação negativíssima dentro das trincheiras para lá fora filmar a serenidade do vale imerso na neve num tom azulado. Na espera, nessa noite silenciosa e serena que aterroriza a alma daqueles soldados, um major traz novas ordens, é preciso usar um posto de observação avançado e estabelecer novas comunicações pois a usada está na escuta do inimigo, é preciso voluntários mas o caminho é a descoberto…

Delírios da febre se misturam com o medo e com a angústia de quem sente a morte bem perto… a febre que assola mais de metade dos soldados, mesmo o próprio tenente que mais tarde renuncia ao cargo para recuperar a dignidade, as novas ordens são criminosas como lhe diz ao major bem cedo, são suicidas, é como enviá-los para a morte… morte que virá e assombrará o novato que fica no lugar do tenente, morte que irá pesar no sargento (“tudo é culpa minha”) que ordena a fila de homens na espera dum ataque de infantaria que não chega e ao invés os canhões e os morteiros matarão alguns daqueles soldados, morte que paira sobre todo aquele vale…

Em Torneranno i prati não há comoção, não há clímax nem nada que se pareça, há serenidade (como nos filmes de Ozu) e resignação num lamento sobre a guerra e a morte, sobre o esquecimento e a sua reflexão, sobre a angústia do momento… talvez o melhor filme que vi este ano!

4 de setembro de 2017


Parece-me que em Sans toit ni loi Agnès Varda assume toda a rebeldia não só de Mona como de uma geração, a da Nouvelle Vague…mais do que a vagabundagem ou a inadaptação quer social quer individual (e aqui vem-nos à memória a grande monstruosidade de Truffaut e o seu Les quatre cents coups) parece-me que Varda quer perpetuar no tempo (ou no cinema) toda a rebeldia dos grandes cineastas da nouvelle vague. Talvez seja impressão minha, talvez não, mas o facto é que a similaridade existe e Sans toit ni loi busca no seu todo uma forma de (in)explicar um certo sentido de insurreição contra o mundo ou apenas contra a sociedade. Se Mona vagueia por aquela França rural e invernosa numa busca dum certo sentido ou lugar no mundo que parece não existir ou não coabitar consigo, numa luta interior desenfreada, desorientada e infrutífera onde não podia deixar de haver os caminhos tortuosos do álcool e das drogas leves, parece-me sóbrio e lógico entender que aquela jovem perdida no mundo e no seu caos que lhe faz escolher a ociosidade e a inutilidade vagueia e percorre todo o seu rumo e todo o filme em busca dum nada resultante dum conflito interior perpetuado por uma rebeldia quer geracional quer pessoal…

31 de julho de 2017

Filmes vistos dignos de registo:

(1915) The Pitch o' Chance - Frank Borzage
(1916) The Pilgrim - Frank Borzage
(1916) Nugget Jim's Pardner - Frank Borzage
(1918) Hearts of the World - David Wark Griffith
(1919) True Heart Susie - David Wark Griffith
(1924) America - David Wark Griffith
(1927) Tretya meshchanskaya - Abram Room
(1928) Dom na Trubnoy - Boris Barnet
(1930) Romance Sentimentale - Sergei M. Eisenstein
(1931) El Desastre en Oaxaca - Sergei M. Eisenstein
(1963) America America - Elia Kazan
(1963) Machorka-Muff - Danièle Huillet, Jean-Marie Straub
(2008) Le genou d'Artémide - Jean-Marie Straub
(1929) Tōkyō kōshin-kyoku - Kenji Mizoguchi
(1951) Isabelle aux Dombes - Maurice Pialat
(1953) Congrès eucharistique diocésain - Maurice Pialat
(1957) Drôles de Bobines - Maurice Pialat
(1958) L'Ombre Familiere - Maurice Pialat
(1961) Janine - Maurice Pialat
(1966) La Camargue - Maurice Pialat
(1968) Korotkie Vstrechi - Kira Muratova
(1989) Astenicheskiy Sindrom - Kira Muratova
(1982) Cat People - Paul Schrader
(2016) I Am Not Your Negro - Raoul Peck
(2016) Bacalaureat - Cristian Mungiu
(2016) Voyage à travers le cinéma français - Bertrand Tavernier
(2017) Fátima - João Canijo
(2013) Only Lovers Left Alive - Jim Jarmusch
(2016) Paterson - Jim Jarmusch
(2016) The Lost City of Z - James Gray
(2016) Treblinka - Sérgio Tréfaut

Revisões:

(1927) Wings - William A. Wellman
(1951) A Place in the Sun - George Stevens
(1972) La Cicatrice Interieure - Philippe Garrel
(1990) Die Hard 2 - Renny Harlin
(2007) Youth Without Youth - Francis Ford Coppola

8 de julho de 2017

Os comboios da morte...

Treblinka do Tréfaut é das melhores coisas que vi ultimamente, vive da negrura e da melancolia dos seus planos e enquadramentos para se envolver na desolação, na angústia e no reavivamento das memórias do passado. Tréfaut faz uma viagem (literalmente porque o “caminho” se faz quase sempre ou dentro daquelas carruagens ou no exterior filmando-as) pelas memórias de dois sobreviventes (um homem e uma mulher) desse terrífico e tenebroso campo de extermínio nazi. Os comboios e os seus vagões ou carruagens, nos quais chegam os “condenados” à morte, são o ponto de partida e o veículo de Tréfaut para daí construir o seu filme, é neles que chegam os tais dois sobreviventes como é por eles que chegam todos os outros que, como a dada altura do filme eles dizem, com as suas mortes vão fazendo ou ajudando a sobreviver aqueles judeus que “os ajudam a matar”… a sobrevivência tem destas coisas, alguém tinha de cortar cabelos, alguém tinha de empilhar as roupas e “reunir” o dinheiro e o ouro (extrair os dentes de ouro) e tudo o que fosse de valor para os alemães, alguém tinha de carregar os corpos, incinerá-los… sobrevivência.

Tréfaut parece-me usar a nudez como ligação directa ou duma certa fidelidade de representação visual ao passado e a essas memórias… todos eram despojados dos seus pertences, das suas roupas, todos ficavam sozinhos no seu caminho para a morte… a nudez representativa também da fragilidade e da pequenez do individuo, da humilhação e da submissão… não há maior rebaixamento possível. Treblinka é coisa negra e fria, assim tinha de ser, traz naquelas duas vozes uma tristeza melancólica e resignada, traz além do reavivar de memórias um reviver (ou algo como uma extensão de tudo aquilo que se viveu no holocausto) naquelas duas vozes (uma delas voz-off - a da mulher - representada por Isabel Ruth) daqueles fantasmas do holocausto, o passado a misturar-se com o presente (como todo o filme é uma mistura de ficção e documentário) e por isso os comboios ainda ligam a Rússia e a Ucrânia à Polónia e a Treblinka e tudo isto seja também um olhar e uma metáfora ou um paralelo à actualidade. O(s) olhar(es), tantas vezes reflexivos naquelas janelas das carruagens, são feitos de dor, de sofrimento, de terror… e o reflexo é usado por essa razão, para mostrar o que ficou dos sobreviventes (não são nem nunca poderiam ser as mesmas pessoas, tudo muda para quem passa e consegue sobreviver ao inferno) e, como diz Tréfaut, “o que é viver depois disso”… Treblinka acaba por ser algo muito mais sobre o presente e tudo aquilo que afinal não mudou do que sobre o passado e sobre o holocausto, ele está lá como referência à actualidade e aos erros que continuam a ser repetidos, a indiferença, o olhar para o lado, o não é nada comigo… e por isso Treblinka rejeita sensacionalismos e victimizações, foge de quaisquer floreados ou sentimentalismos gratuitos. Muito bom.