23 de maio de 2017

http://sensesofcinema.com/2009/great-directors/jean-marie-straub-and-daniele-huillet/

19 de maio de 2017

Rua da Vergonha de Mizoguchi é o derradeiro filme sobre as mulheres… hino à fortaleza ou à força da natureza que são as mulheres… ali há-las de todos os tipos e feitios, estão ali ou vão ali parar por várias razões e objectivos… ali “há de tudo como na feira”! E não, não me parece que tenha havido outro cineasta que tenha filmado tão bem a Mulher, que a tenha explorado até ao seu imo como Mizoguchi fez… como dizia Bénard, que a tenha amado como Mizoguchi… e Rua Da Vergonha ou Akasen chitai é talvez o seu grande “hino” a Elas…

Mas mais uma vez falo de fantasmagoria que percorre o cinema de Mizoguchi… aqui não a há, ou não se vislumbra tão facilmente, pois olhando no fundo do fundo deste filme tão feérico e profundo que é Akasen chitai poderá vislumbrar-se toda essa fantasmagoria na alma daquelas mulheres onde se desvincula o corpóreo do espiritual… essa alma nunca será tocada como tantas vezes o é o corpo… é esta a grande “lição” de Rua da Vergonha, assim como todo o percurso de algumas daquelas prostitutas se deve pela sobrevivência, assim como a escolha e o tal percurso de vida de Yumeko se fez pelo filho para este a desprezar e a “condenar” à loucura… Mizoguchi distancia-se do etéreo para se instalar no corpóreo e em toda a sua materialidade e objecto pecaminoso… a perda da candura e da dignidade… vender o corpo… e Mizoguchi separa-os, o corpo da alma, esta sempre permanece…

Ainda teremos que vincar toda a questão social e política que Akasen chitai revela, o papel da mulher na sociedade, as classes e a sua luta, a miséria a luta pela sobrevivência que a tudo o resto remete… Rua da Vergonha está para Mizoguchi como 7 Women está para Ford, e não há no mundo (ou poucos há no mundo) “coisas” tão homogéneas como as derradeiras obras destes dois mestres... porque se em Mizoguchi se ergue todo o poder feminino em sobreviver (ainda que deambulando) na miséria e na prostituição, em Ford e no seu 7 Women (que diga-se é o filme mais Mizoguchiano de Ford) ergue-se todo esse poder em sobreviver naquelas missionárias e freiras na China dos anos 30…

Forças descomunais, furacões, coisas assombrosas que emanam da alma e se espalham por aqueles corpos (e Akasen chitai é tão erótico quanto negro, tão lúcido quanto idílico) e rostos e pelos caminhos traçados por aquelas mulheres contra o mundo, o corpóreo que transcende do espírito e da alma e da força da mulher… guerra aberta, tão aberta quanto os planos de Mizoguchi...
Monstruosidade total, grandiosidade absoluta.

15 de maio de 2017

13 de maio de 2017

5 de maio de 2017

Quantos mais filmes vejo, mais certezas tenho de que ainda vi tão poucos...

3 de maio de 2017

Austerlitz do Loznitsa é no fundo uma coisa desconcertante, ainda que não o pareça… e para o espectador comum, ou menos atento, não será fácil descortinar isso, Loznitsa faz algo desconcertante no sentido em que a sua constante procura e “fixação” nas pessoas (os turistas) ao invés dos monumentos, dos locais, do “sítio”, nos mostra o lado obscuro não da história e das atrocidades do holocausto à qual todo o filme está impossibilitado de fugir (ainda que se veja claramente que é esse o propósito de Loznitsa, fugir à história, e por isso sim também lá está essa obscuridade inerente), mas sim do lado obscuro que do turismo e da curiosidade das pessoas advém. A ideia que Austerlitz me deu foi que Loznitsa quer mostrar, naquele “mais um dia” de visitas turísticas a um campo de concentração nazi, alguma coisa obscura ou um sentido caricato/irrisório (ou talvez filosófico) naquela exploração turística de algo tão negro e tão demoníaco como foi o holocausto e como isso interessa e atrai as pessoas… e portanto daí a sua procura incessante nelas… nas pessoas, nos gestos, nos rostos, nos comportamentos, nas reacções, na procura das pessoas em tirar fotos, selfies, em documentar a sua passagem por ali (redes sociais como finalidade provavelmente)… é tudo tão bizarro, estranho, dado o contexto do local… ainda que a espaços nos traga explicações de guias acerca dos locais por onde passam, Austerlitz parece-me essencialmente filme sobre as pessoas e a sua relação com aquilo que se visita e se vê e sobre esse sentido quase que infame ou desonroso quer da exploração turística do local quer da abundante procura das pessoas neste. O resultado é algo simples, fascinante e desconcertante.

30 de abril de 2017

Francofonia é (como de resto já o Arca Russa o era) uma das mais puras manifestações do amor de Sokurov pela arte e pela história… é uma contemplação daquilo que a arte representa no mundo e na história, o elo que os une e toda a extrema importância que isso tem no mundo e no tempo. Francofonia deambula mais pela história e pela sua representação directamente ligada à arte que propriamente pelos corredores do Louvre… coisa que se afasta do Arca Russa onde todo o tempo e todo o espaço era confinado num único plano-sequência pelos corredores e salas do Hermitage. Aqui anda-se mais pelas ruas de Paris, lá no alto a observar a cidade da arte e da cultura mundial, quer em representações do passado quer em imagens do presente… à semelhança do Arca Russa temos figuras históricas (tanto a Marianne da República Francesa e da sua revolução como o Napoléon responsável - entre outras coisas - pela obtenção de muitas das obras de arte que o Louvre alberga) que assombram e deambulam nesta magnífica viagem e homenagem ao museu do Louvre… aliás, Sokurov quer homenagear os museus, “o que sería de nós sem os museus” diz ele a dada altura… Francofonia é amor pela arte, pela pintura e pela escultura, e para isso explora a história, com mais incidência na época da segunda guerra mundial em que quer documentar esse tempo de resistência em que o Louvre sobrevive a uma das maiores ameaças já existentes… traz duas figuras preponderantes nessa preservação e manutenção do museu e das suas relíquias, uma francesa (Jacques Jaujard, director nacional do Louvre e dos museus nacionais) e uma alemã (Franz Wolff-Metternich, o comandante ou responsável pela Kunstschutz - departamento militar nazi da protecção e preservação das obras de arte, museus e monumentos históricos quer franceses quer europeus) e vai representando-as numa mescla de ficção e documental na procura dum sentido quer histórico quer temporal da arte e da sua importância quer no mundo quer nas nossas vidas.