27 de fevereiro de 2009

Rocco e i Suoi Fratelli (1960)


Vi este filme pela primeira vez quando tinha apenas 11 ou 12 anos aquando duma transmissão televisiva da RTP2 numa rubrica que existia na altura intitulada “O Filme da Minha Vida”, onde o convidado explicava o porquê do filme em questão ser a sua escolha como filme da sua vida (foi também nesta rubrica que vi passado pouco tempo depois “Amarcord” de Federico Fellini, mais uma obra-prima). Lembro-me que fiquei completamente maravilhado pelo cinema italiano e por este “Rocco e i Suoi Fratelli” em particular. Até então, pouco ou nada conhecia do cinema italiano, foi a partir desta obra de Visconti que iniciei a minha demanda e consequente paixão pelo cinema mais belo e mágico (na minha opinião) de todo o mundo. Foi depois de ver esta obra-prima que “conheci” Fellini, De Sica, Pasolini, Rossellini, Bertolucci, Tornatore, Antonioni, etc. Este “Rocco e i Suoi Fratelli” foi o desencadear duma paixão e admiração minha por um cinema belo e brilhante como o italiano. Ao rever este filme senti-me, por quase três horas (o tempo de duração do filme), como quando o vi pela primeira vez, maravilhado.
“Rocco e i Suoi Fratelli” insere-se na vertente do neo-realismo italiano cinematográfico, já desenvolvido pelo cineasta em obras como “Ossessione” de 1943, “La Terra Trema” de 1950 e “Bellissima” de 1951. Luchino Visconti juntava-se assim a nomes como Vittorio De Sica, Roberto Rossellini (considerado o pai do neo-realismo), Federico Fellini, Pier Paolo Pasolini e Giuseppe De Santis (este último em conjunto com Visconti fazia parte da tendência marxista) neste movimento da vanguarda do cinema italiano.
O filme conta a história de uma família oriunda de Lucania, que chega à grande cidade de Milão depois da morte do patriarca Antonio Parondi.
Aqui, em Milão, vivia já o primogénito da família, Vincenzo (Spiros Focás), que estava noivo da namorada Ginetta (Claudia Cardinale). Num pós-guerra difícil, Vincenzo depara-se com a árdua tarefa de encontrar um tecto para a família e trabalho para os irmãos, Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi), este último ainda criança.
Visconti conta-nos a história dos cinco irmãos por ordem decrescente, começando com Vincenzo e acabando com Luca. Todos estão interligados, o filme trata do desmoronamento de uma família, da decadência de um Simone magistralmente interpretado por Renato Salvatori e de como o amor obsessivo pode mudar uma pessoa. O cineasta italiano atinge com esta obra, na minha opinião, um dos expoentes máximos do neo-realismo a par daquela que foi o marco inicial deste movimento cinematográfico no pós-guerra italiano, a obra de Roberto Rossellini “Roma Città Aperta” (Roma Cidade Aberta) de 1945 e das duas obras-primas de Vittorio De Sica “Ladri Di Bicicletta” (Ladrões de Bicicletas) de 1948 e “Umberto D” de 1952.
Simone e Rocco são as personagens centrais da obra. Dos cinco irmãos, é o rumo destes dois que nos prende ao ecrã. Vincenzo é aqui apresentado como o irmão consciente, que gosta da família mas que quer casar e ter filhos de Ginetta. A história desenvolve-se e complexa-se com Simone. Este torna-se lutador de boxe e rapidamente fica famoso, mas, antes disso é Vincenzo quem encontra a mulher que vai causar toda a destruição entre Simone e Rocco, Nadia (Annie Girardot). Nadia é uma prostituta que vive com o pai no andar de cima de onde a família Parondi reside. É neste momento, em que Vicenzo a convida para casa e a apresenta à mãe e aos irmãos, que Simone e Rocco têm o primeiro contacto com a bela Nadia. A partir daqui, Visconti desenvolve o tema fulcral desta obra-prima, a obsessão. Simone é retratado como um homem que se vai arruinando com a sua obsessão por Nadia e os seus consequentes vícios como o tabaco, o álcool e o jogo. Já Rocco é o oposto de Simone. Rocco, interpretado brilhantemente por um jovem Alain Delon, é-nos apresentado como um “santo”, um homem bom que ama a família e que por sua vontade nunca teria saído de Lucania, a sua terra. No final, existe um diálogo de Ciro com Luca que nos faz a definição completa de Rocco e de Simone e de toda a história do filme. Ciro desabafa com Luca e diz:
“Ninguém amou tanto o Simone quanto eu! Quando chegamos em Milão, eu era um pouco mais velho que tu… e Simone explicava-me as coisas que eu não conseguia entender. Dizia que na nossa terra todos viviam como animais. Só conheciam a fome e a servidão. Que ninguém deve ser escravo do outro…e não se esquecer do seu dever. Mas Simone esqueceu-se disso…e por isso teve esse fim terrível. Arruinou-se e trouxe-nos a vergonha. Ele causou muita dor ao Rocco, e a ti, Luca, que és o menor de todos. Simone era bom, mas meteu-se com más companhias. E o Rocco está errado em ser tão bom e generoso. Ele é um santo. Mas o mundo não é assim. Ele não se defende. Ele perdoa tudo a todos e nem sempre isso está certo!”
Neste desabafo final de Ciro, talvez o mais responsável mas o menos sentimentalista (pelo menos a demonstrá-lo, pois neste diálogo final ele mostra-nos que as suas acções são tomadas com base na racionalização e não no amor fraterno, o que não invalida que ele não o tenha), Visconti faz aqui uma retrospectiva das suas personagens e tenta resumir num desabafo a razão de todo aquele abismo em que Simone cai e arrasta a sua família, principalmente Rocco que é aquele que é mais magoado por ele mas que está sempre pronto a ajudá-lo.
Rocco define-se num curto diálogo, o mais profundo desta obra dito por si mesmo:
“ – Lembras-te Vince? O pedreiro, quando começa a construir uma casa nova, atira uma pedra na sombra da primeira pessoa que passa.
– Porquê? (pergunta Luca)
– Porque ele oferece um sacrifício, para que a sua casa se torne sólida.”
Visconti quis mostrar a personalidade de Rocco com este diálogo, quis mostrar o porque de Rocco ser tão bom e generoso, o porque das suas acções altruístas para com Simone. O sacrifício de que fala, ele fá-lo quando abdica de Nadia por causa de Simone, fá-lo quando se condena ao boxe (embora não gostasse do desporto) para pagar a divida do irmão. Nesta frase se define o pensamento de Rocco e o que o faz ter aquela conduta para com o irmão. Amor fraterno, sacrifício, esperança de que a razão ainda pudesse vencer a cabeça de Simone.
Assim era Rocco, conformista, generoso, altruísta, bondoso e ingénuo.
Visconti traz-nos com este “Rocco e i suoi Fratelli” uma obra-prima dum neo-realismo mais humano, menos sociopolítico e, digamos, mais preocupado com os problemas emocionais e pessoais dum indivíduo, libertando-se assim da estética antifascista que definia todo a corrente cinematográfica neo-realista e que está bem latente em “La Terra Trema” de 1950. Mas Visconti não foi o primeiro a mudar essa estética do neo-realismo, bem pelo contrário, Rossellini já tinha adoptado essa mudança de visão da corrente realista italiana com “Stromboli” e “Terra Di Dio” ambos de 1949, seguido de “La Strada” de Fellini do ano de 1954.
Imperdível, controverso, com interpretações fabulosas de Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot e Katina Paxinou no papel da mãe, assim é “Rocco e i Suoi Fratelli”. A realização, essa, é esplêndida como em qualquer obra de Visconti.
Fabulosa obra de um dos maiores génios que o cinema italiano e europeu alguma vez teve.



26 de fevereiro de 2009

25 de fevereiro de 2009

Salò o Le Centoventi Giornate di Sodoma (Salò ou os 120 Dias de Sodoma)


Se há no cinema obra-prima que possa ser completamente repugnante e visualmente abjecta, essa obra é “Salò”. Em 1975, Pier Paolo Pasolini, cineasta italiano de uma controvérsia tal fez o seu último filme bem como o mais polémico.
“Salò” define-se como uma análise satírica, uma reflexão sobre o abuso de poder e os actos atrozes e depravados de uma ditadura em decadência. Claramente uma sátira e censura sobre o fascismo, esta obra de Pasolini marca pela violência gráfica e visual que nos apresenta. “Salò” traz consigo uma visão cruel e repulsiva dos últimos tempos da ditadura italiana, o fascismo.
Pasolini adapta a obra de Marquês de Sade “Os 120 Dias de Sodoma” e divide o filme em 4 círculos alusivos a Dante e sua obra “A Divina Comédia”. São eles: Antinferno, Manias, Fezes e Sangue.
No primeiro círculo, Antinferno, é-nos apresentada a colheita de vários jovens de ambos os sexos e seu posterior encaminhamento para uma mansão onde irão decorrer as orgias, sodomizações e depravações dos Senhores do Fascismo. Os restantes círculos: Manias, Fezes e Sangue desenvolvem visualmente a crítica a um regime ditatorial em domínio total sob um povo submisso a um desejo atroz e devasso de homens poderosos e depravados. Nestes círculos são nos apresentados os actos mais repugnantes e perversos que há memória na história da Humanidade.
Obra polémica e chocante de Pasolini, que me marcou/impressionou muito aquando da minha visionação do filme (devia ter 14 ou 15 anos) pela sua crua e excessiva crítica a um regime fascista que governou um país durante aproximadamente 23 anos.
Pier Paolo Pasolini retracta de forma crua e dura o abuso de poder e depravações de uma ditadura, não sendo aconselhado a qualquer pessoa.
No mesmo ano do lançamento de “Salò”, a 2 de Novembro de 1975, Pasolini foi assassinado em Ostia, na Itália. A causa da morte ainda hoje gera polémica (apesar do assassino ter confessado), existindo rumores de que o assassinato teria sido político e relacionado com “Salò”.


24 de fevereiro de 2009

A DIVINA COMÉDIA (1991)

De Manoel de Oliveira








NINE HORSES - Snow Borne Sorrow (2005)


Lançado em 2005, este é o primeiro álbum(o segundo saiu em 2007 - Money For All) dos Nine Horses. Tendo como grande mentor o inglês David Sylvian, estes Nine Horses são ainda formados por Steve Jansen e Burnt Friedman.
Este álbum teve ainda a colaboração do trompetista norueguês Arve Henriksen, o vocalista sueco Stina Nordenstam e o compositor Ryuichi Sakamoto no piano.
Recomenda-se.



23 de fevereiro de 2009

A Palhaçada dos Óscares 2009

Ora bem, por muito que me custe, tenho que falar da palhaçada dos Óscars e as suas escolhas.
Não foi surpresa nenhuma para mim, já que todos os anos a Academia faz as suas escolhas (tanto nas nomeações como na atribuição das estatuetas) politicamente correctas em detrimento de verdadeiras obras-primas do cinema. Este ano não foi excepção e, embora poucos dos muitos filmes que estavam nomeados tivessem realmente valor para um tão prestigiado prémio, os mais “fracos” foram os vencedores (talvez esteja a exagerar), com excepção nas categorias técnicas e no Melhor Actor Secundário.




Lista dos Vencedores:
Best Picture (Melhor Filme) – Slumdog Millionaire
Best Director (Melhor Realizador) – Danny Boyle
Best Actor (Melhor Actor) – Sean Penn
Best Actress (Melhor Actriz) – Kate Winslet
Best Supporting Actor (Melhor Actor Secundário) – Heath Ledger
Best Supporting Actress (Melhor Actriz Secundária) – Penélope Cruz
Best Animated Feature Film (Melhor Filme Animado) – WALL-E
Best Foreign Film (Melhor Filme Estrangeiro) – Departures (Japão)
Best Original Screenplay (Melhor Argumento Original) – Dustin Lance Black (Milk)
Best Adapted Screenplay (Melhor Argumento Adaptado) – Simon Beaufoy (Slumdog Millionaire) Best Original Score (Melhor Banda Sonora) – A. R. Rahman (Slumdog Millionaire)
Best Original Song (Melhor Música Original) – Jai Ho (Slumdog Millionaire)
Best Sound Mixing (Melhor Mistura de Som) – Slumdog Millionaire
Best Sound Editing (Melhor Edição de Som) – The Dark Knight
Best Film Editing (Melhor Edição) – Slumdog Millionaire
Best Cinematography (Melhor Fotografia) – Slumdog Millionaire
Best Art Direction (Melhor Direcção de Arte) – The Curious Case of Benjamin Button
Best Special Efects (Melhores Efeitos Especiais) – The Curious Case of Benjamin Button
Best Costume Design (Melhor Guarda-Roupa) – The Duchess
Best Makeup (Melhor Caracterização) – The Curious Case of Benjamin Button
Best Documentary Feature (Melhor Documentário) – Man on Wire
Best Documentary - Short Subject (Melhor Documentário Curto) – Smile Pinki
Best Live Action Short Film (Melhor Curta-Metragem) – Toyland
Best Animated Short Film (Melhor Curta-Metragem de Animação) – La Maison en Petits Cubes

O grande vencedor da noite foi o filme de Danny Boyle, Slumdog Millionaire com oito estatuetas alcançadas. Danny Boyle, que outrora fez filmes de grande qualidade como Trainspotting, Sunshine, 28 Days Later e até The Beach, apresenta-nos agora uma débil e patética história de amor e sobrevivência, ao bom estilo americano, com a Índia como pano de fundo, onde o que enaltece o filme é a beleza estonteante da actriz indiana. Marcado pelas temáticas crime/amizade/ exploração infantil /traição e tecnicamente razoável, o filme não contribui em nada para a história do cinema.
The Curious Case of Benjamin Button de David Fincher acabou por ser o grande derrotado. Já se sabia à partida que nas categorias de Melhor Actor e Melhor Actriz Secundária o filme sairia derrotado. A surpresa (ou não) foi relativamente à categoria de Melhor Filme e Melhor Realizador. Para ser sincero, The Curious Case of Benjamin Button pouco melhor é que Slumdog Millionaire,mas supera-o em tudo por pouco que seja. Embora produto comercial com vista a uma receita de bilheteiras lucrativa em que tal finalidade teve sucesso confirmado (tal como Slumdog e Milk), o filme de Fincher, além dos aspectos técnicos que são claramente superiores a qualquer outro dos nomeados (exceptuando talvez os casos de The Dark Knight e Wall-E), merecia mais que o filme de Danny Boyle. A excelente realização de Fincher é claramente um ponto forte do filme e que faz de uma obra corriqueira e comercial um filme de valor narrativo considerável.
Mas, olhando para a lista de vencedores, a minha repugnância em relação a esta cerimónia estende-se ainda mais quanto à entrega da estatueta a Sean Penn em detrimento de Mickey Rourke. Um fez de gay, o outro de wrestler. Milk traça o perfil do primeiro gay a conseguir um cargo político, The Wrestler é só uma historiazinha de um lutador. Milk é produto de Hollywood enquanto o filme de Aronofsky é independente. E...o que mais haveria para dizer!!!!..
Mas como não me quero estender muito a falar de uma cerimónia que há muito me desilude e por isso me passa ao lado, aqui fica mais um desabafo meu numa categoria: Melhor Argumento AdaptadoSlumdog Millionaire?!! Porquê? Em que é melhor este argumento que o do filme de David Fincher?
Pode ser que alguém me responda…

22 de fevereiro de 2009

MONTY PHYTON

E numa altura em que quase todos os blogs cinematográficos falam dos Óscars, aqui vai a minha sugestão.
Os pais do non sense, os Monty Python.




20 de fevereiro de 2009

Un Chien Andalou (1929)




Luis Buñuel a falar daquele que é considerado o ícone do cinema experimental surrealista, "Un Chien Andalou".


Da colaboração entre Buñuel e Dalí nasce uma obra-prima chamada "Un Chien Andalou". Para quem não conhece, é uma curta-metragem, é a primeira obra cinematográfica do "grande" Luis Buñuel e remete-nos a muitas interpretações. Como representante do cinema surrealista, este "Un Chien Andalou" traz-nos uma sucessão de imagens desconexadas e oníricas. Tentar interpretar este filme não é fácil e mesmo hoje em dia, 80 anos depois, existem variadíssimas interpretações da obra. O próprio Buñuel afirma que a origem do filme recai em dois sonhos que Dalí e ele tiveram.
"Un Chien Andalou" é também detentor de uma das cenas mais chocantes em cinema, a do globo ocular de uma mulher sendo cortado por um homem (o próprio Buñuel). Aqui fica essa cena.

19 de fevereiro de 2009

SIGUR ROS


OLSEN OLSEN LIVE



HOPPÍPOLLA LIVE



ÁGAETIS BYRJUN LIVE

18 de fevereiro de 2009

17 de fevereiro de 2009

XXY (2007)



Simples, arrojada, polémica, assim se descreve esta obra de Lúcia Puenzo que nos chega da Argentina. Datado de 2007, “XXY” traz-nos a história de um hermafrodita de 15 anos. Alex (Inés Efron) é esse jovem, que chegado à fase da adolescência, vê o seu desejo sexual intensificar-se e o tempo começar a escassar, necessitando assim de definir a sua identidade sexual. O hermafroditismo caracteriza-se pela ambiguidade de sexos de um indivíduo, caso que não é muito normal. Quando um indivíduo nasce com estas características, é obvio que a medicina e a ciência ganham aqui um papel relevante na formação desse indivíduo. Experiências, estudos, operações,etc.
Neste caso, quando Alex nasceu, os seus pais, Kraken (Ricardo Darín) e Suli (Valeria Bertuccelli), resolveram “esconder-se do mundo”, numa pequena vila no Uruguai. A ideia dos pais era não mutilar a criança, conscientes do facto de tal ambiguidade sexual não acarretar problemas, fosse de que ordem fosse. Alex vive escondida duma sociedade altamente discriminadora que a faz ter medo do seu próprio corpo. Além disso, quando Suli decide convidar um casal amigo (no qual o marido é um cirugião plástico) com a finalidade de conhecerem Alex, com vista numa potencial futura operação de mudança de sexo, em que aquando dessa visita e estadia desse casal, que traz consigo o filho adolescente de 16 anos, Alvaro (Martín Piroyansky), o ambiente que se cria entre este e Alex vai acelerar o processo de um desejo sexual, próprio e natural de um adolescente, confundindo Alex em relação à questão de sua identidade sexual. Alex atrai-se por Alvaro e vice-versa, mas a surpresa vem quando nos deparamos com um acto homossexual entre estes dois adolescentes. O esforço que os pais de Alex tiveram durante anos a tentar evitar o processo de masculinização com medicamentos, era agora inevitável face ao desejo mais primário de todos, o desejo sexual. Chegado este momento do filme, deparamo-nos com uma dúvida de Alex tão perentória quanto a incerteza relativa à sua identidade sexual (ser rapaz ou rapariga), a dúvida em ser heterossexual ou homossexual.
Confesso que este filme, foi para mim, uma agradável surpresa cinematográfica de 2007. Lucía Puenzo, depois de uma curta-metragem intitulada “Los Invisibles” em 2005, tem com este “XXY” uma excelente obra de estreia. Desde uma fotografia cuidada, passando pelas excelentes interpretações dos dois adolescentes, um argumento sólido, arrojado e polémico como referi em cima até à boa realização de Lucía Puenzo, esta obra merece um lugar de destaque na história do cinema.
Para quem nunca viu, aqui fica o trailer da obra.




Queria ainda deixar aqui um agradecimento especial ao LN (http://c7nezine.blogspot.com/) já que foi ele que me indicou o visionamento desta magnífica obra de Lucía Puenzo.

16 de fevereiro de 2009

Eraserhead (1977)

By David Lynch







Sharunas Bartas

Praejusios Dienos Atminimui - Im Memory of the Day Passed By (1990)






Trys Dienos - Três Dias (1991)





Koridorius - O Corredor (1994)






Few Of Us (1996)





A Casa (1997)





Freedom (2000)





Seven Invisible Men (2005)

15 de fevereiro de 2009

Zemestan - É o Inverno (2006)



Num país onde a luta pela sobrevivência é constante, Rafi Pitts traz-nos uma obra dramática de um Irão negro e caótico. Em "Zemestan" a temática central da obra é a sobrevivência face a uma crise que afecta mais de metade da população do Irão. As fábricas fecham, o trabalho escasseia e a procura deste expande-se para fora do país, onde existe mais facilidade e oferta de trabalho. É neste ambiente inóspito que se desenvolve a história de Marhab, um viajante numa procura de trabalho em Teerã.
Obra lírica de Pitts, este “Zemestan” transporta consigo uma mensagem forte de amor e luta pela vida. Pitts quis também salientar que a necessidade em trabalhar como meio essencial para a sobrevivência de um indivíduo, não implica a humilhação e exploração deste. O filme retrata essa temática de forma bem clara e mostra-nos um personagem que não está disposto a aceitar tal condição.
O amor também é aqui retratado, pois é por amor que o marido que partiu em busca de dinheiro e que, regressado de uma aventura falhada e que se depara com outro homem (Marhab) dentro de sua casa e com sua mulher, se suicida no fim do filme. É por amor que Marhab resolve, após ver o suicídio, ficar e desistir de mais uma viagem em busca de um futuro melhor.
“Zemestan” é uma admirável reflexão à sobrevivência e sua condição humana, ao amor e sua compreensão. Isto é cinema.




TATARAK



A mais recente obra do malogrado cineasta polaco Andrzej Wajda estreou ontem no Festival Internacional de Berlin. Apesar de só ter sido galardoado com o prémio Alfred-Bauer, é com grande expectativa que aguardo a estreia de mais uma obra de um cineasta que aprendi a respeitar ao longo da minha vida. O filme é baseado numa história de Jaroslaw Iwaszkiewicz, que nos conta o envolvimento de uma mulher casada com um garoto. Krystina Janda, ícone feminino do cinema polaco e mundial, encarna essa mulher.



Berlinale








Chegou ao fim mais uma edição do Festival Internacional de Cinema de Berlin. A 59ª edição do Berlinale teve como grande vencedor o filme "La Teta Asustada" da peruana Claudia Llosa, conquistando o Urso de Ouro. O Urso de Prata para melhor realizador foi entregue ao iraniano Asghar Farhadio com o seu quarto filme "About Elly". O actor maliano Sotigui Kouyate, de 72 anos, conquistou o prémio de melhor actor pela sua interpretação em "London River", enquanto que a austríaca Birgit Minichmayr foi a grande vencedora da categoria feminina por "Alle Anderen".
O Grande Prémio do Júri teve dois vencedores: "Gigante", uma co-produção uruguaio-argentina de Adrián Biniez, e o filme alemão "Alle Anderen", realizado por Maren Aden.
O "Gigante" conquistou também o prémio de melhor primeira obra ou Alfred Bauer (criado em honra do fundador do Festival) , galardão que foi também entregue ao filme de Andrzej Wajda, "Tatarak".
Manoel de Oliveira recebeu nesta edição do Festival, uma das maiores distinções, a Berlinale Kamera, relativo à estreia mundial do seu mais recente filme, "Singularidades de uma Rapariga Loura". O júri do Festival de Berlim foi presidido pela actriz Tilda Swinton.

12 de fevereiro de 2009

Pearl jam Live at Bonnaroo 2008



Os Pearl Jam a tocar a música Better Man no Festival Bonnaroo no dia 14 de Junho de 2008. Para quem não conhece, este festival de música realiza-se anualmente durante 4 dias desde 2002. Tem lugar no Great Stage Park, em Manchester, Tennessee, nos Estados Unidos da América.
Para quem gosta, aqui fica.

'ALLO 'ALLO! em 2007



Lembram-se disto. Grande série da Britcom. Isto sim que me fazia rir...e a nostalgia que nos deixa. Já estão velhos...mas ainda mandam pinta...

Garota de Ipanema - Tom Jobim e Vinicius de Moraes



Bossanova ao seu mais alto nível. Os mestres Vinicius e Jobim.
Que maravilha....

11 de fevereiro de 2009

Wim Mertens


Magnífica composição de Wim Mertens para mais uma obra de Greenaway.

The Tree of Life


Aqui está um dos filmes mais esperados do ano. "The Tree of Life" de Terrence Malick promete ser mais uma obra-prima deste génio do cinema. Brad Pitt e Sean Penn fazem parte do elenco.
A ver vamos se corresponde à expectativa.

10 de fevereiro de 2009

TUVALU (1999)



“Tuvalu” é uma pérola do cinema europeu que não necessita legendagem onde quer que seja visto. Aqui fala-se a linguagem universal, a linguagem gestual à excepção dos nomes das personagens e algumas expressões tais como “ambulanz”, “inspektor”, “technologie”, “perfect”, “system”, “no”, “end”, entre outras que toda a gente percebe.
Tuvalu é o nome de um grupo de nove atóis, situado no Oceano Pacífico. Estas ilhas adquirem aqui, pelas personagens de Anton (Denis Lavant) e Eva (Chulpan Khamatova) um significado metafórico, alegórico; o paraíso, a terra dos sonhos.
Datado de 1999, com realização de Veit Helmer, “Tuvalu” oscila entre o real e o imaginário, mergulha na utopia de uma terra perfeita e paradisíaca que é desejo constante na alma de dois indivíduos que até os nomes nos fazem crer que nada é feito ao acaso. Fábula intrínseca de estética pós-apocalíptica, “Tuvalu” insere-se na vertente de obra visual poderosa, não obstante a um forte argumento e brilhantes interpretações.
Em local incerto e decadente pontuado por edifícios em ruínas, encontra-se num destes, Anton, filho do proprietário do hotel, homem cego e velho que vive em prol de uma piscina velha, ladeada por azulejos a cair, mosaicos a saltar e buracos no telhado, onde toda a clientela é fictícia mas real para este, fruto de um constante empenho por parte de Anton em reproduzir uma cassete com sons de pessoas a nadar e a brincar na piscina. Gregor (Terrence Gillespie), irmão de Anton, pretende adquirir o edifício com vista à demolição deste e construção de um maior e mais moderno. Eva vai chegar e o amor vai surgir no coração de Anton e dela, que acompanhada pelo pai, instala-se no decrépito hotel e vai descobrir que ali existe uma peça que precisa para que a caldeira do barco do seu pai funcione. Enquanto isto, Gregor tenta tudo para que um inspector feche o hotel e Anton se veja obrigado a vender-lho. Pelo meio, o pai de Eva morre e esta atribui as culpas a Anton.
“Tuvalu” é uma obra-prima maravilhosa, bela, original, cativante e surreal. É tudo o que o cinema tem de extraordinário.

9 de fevereiro de 2009

Boys Boys Boys - Sabrina Salerno

video

E tudo começou com a Sabrina.... velhos tempos.....

8 de fevereiro de 2009

PONETTE




Estamos aqui perante uma grande obra de Jacques Doillon. Ponette traz-nos a história de uma menina de 4 anos (Victoire Thivisol) que se vê confrontada com a perda da mãe e sua constante luta para aceitar esse facto que tanta dor lhe traz. Existem muito poucas interpretações ao nível da de Thivisol, arrisco-me até a dizer que nenhuma.
Ponette é um filme simples, tanto no campo técnico como no argumento. O que faz deste filme uma obra de grande valor, são as interpretações dos actores principais, dos quais a pequena Victoire Thivisol se destaca. Esta raridade do cinema europeu traz-nos uma história trágica e seu consequente desenvolvimento no pós-morte da mãe de Ponette. Esta criança de 4 anos vai insistentemente negar a morte da mãe e tentar a todo o custo falar com ela ou com Deus. A interpretação da pequena Thivisol é de uma categoria tão soberba, tão maravilhosa, que chega mesmo a ter, por momentos, a capacidade de iludir o espectador e fazer crer que é real. Existem muitos actores adultos profissionais, com enorme sucesso nos mais variados meios do cinema, que não chegam aos “calcanhares” desta interpretação assombrosa da pequena Thivisol.
Doillon traz-nos um universo completamente diferente daquilo a que estamos habituados, o universo das crianças na idade pré-escolar. Ou seja, a linguagem do filme e seus diálogos são praticamente todos de compreensão muito fácil, infantil. Doillon lida neste filme com a percepção que uma criança tem/ganha quando confrontada com uma situação tão difícil como a morte de uma mãe. Não é fácil aceitar a morte de alguém que nos é querido mesmo quando somos adultos, mas Doillon vai mais longe e mostra-nos o sofrimento de uma criança de 4 anos que de um momento para o outro se vê privada da figura mais protectora para uma criança, a mãe. Aceitar este facto requer várias explicações que lhe são dadas pelos adultos, pelas outras crianças da sua idade, inclusive os seus primos que convivem com ela dia a dia. Mas Ponette recusa-se a aceitar o facto de a mãe ter morrido e é aqui que a interpretação desta criança se transcende e traz todo o valor ao filme. É quando Ponette inventa que fala com a mãe de noite, quando a tia lhe diz que a mãe está no céu com Deus, quando a educadora a ensina a rezar, que toda a essência do filme faz sentido. É nestes momentos de uma procura de respostas às perguntas que uma criança de 4 anos, perdida numa condição que não compreende, não quer compreender e que procura incessantemente remediar e revogar toda essa condição a que está sujeita, que esta obra se valoriza. Ponette vai mais longe e cria ela própria o seu momento de despedida com a mãe. Quando Ponette passeia de mão dada com a mãe pelo bosque e lhe pede que nunca mais se vá, Doillon mostra-nos que embora seja difícil aceitar o facto de a mãe estar morta e não voltar, a resignação de um indivíduo tem que chegar. E que melhor maneira do que a de Ponette, quando cria imaginariamente uma despedida da mãe, simbolizando a sua aceitação de uma condição que era mais forte que a sua constante negação de tal circunstância.
Ponette é um filme belo, emocionante e extremamente simples. Aqui não há grandes enredos, traições e paixões. Ponette trata da morte, da dor e do amor. Ponette é arte em cinema.

7 de fevereiro de 2009

Os 10 Melhores Filmes de Guerra

Esta lista visa nomear, a meu ver, os 10 melhores filmes de guerra (Vietname, 1ª e 2ª Guerra Mundial).
10 - La Vita è Bella (1997)

9 - La Grand Illusion (1937)


8 - The Pianist (2002)

7 - Platoon (1986)


6 - Lawrence of Arabia (1962)

5 - The Bridge On The River Kwai (1957)


4 - The Thin Red Line (1998)


3 - The Deer Hunter (1978)


2 - Full Metal Jacket (1987)


1 - Apocalypse Now (1979)




actualizada em 8/3/2011

5 de fevereiro de 2009

THE NEW WORLD


Terrence Malick é actualmente um dos grandes génios do cinema mundial. Por si falam as suas 4 obras-primas que mostram que quantidade não é sinónimo de qualidade. Datado de 2005, este “The New World” é uma obra muito poética e filosófica, à imagem da sua anterior obra “The Thin Red Line”. Tal como nessa obra, “The New World” está repleto de monólogos existencialistas e naturalistas. A mãe natureza tem aqui um papel fundamental na construção e desenvolvimento do filme e das personagens, principalmente as de John Smith (Colin Farrell) e de Pocahontas (Q’Orianka Kilcher). O filme traz-nos a história da fundação da cidade Jamestown, na Virgínia, enquanto nos narra o conto de amor entre o Capitão Smith e Pocahontas. A paixão entre estes dois seres é-nos apresentada por Malick como algo transcendental, sublime, mágico e puro. São muitos os momentos em que vemos os dois a tocarem-se, sempre acompanhados por uma calma abundante em toda aquela natureza, a mãe-natureza, que parece ser um deus e a verdadeira inspiração para estas duas almas apaixonadas e toda a civilização índia. O filme irradia reflexões e críticas à sociedade actual, mostra que apesar do não desenvolvimento económico e cultural que os índios teriam se ainda hoje fossem povo, a sua sociedade era mais feliz e tranquila que a nossa actualmente. Terrence Malick aproveita a história de Pocahontas para fazer uma reflexão sobre o que seria viver em conformidade com a natureza, o que seria se o desenvolvimento científico, económico, electrónico e químico não crescesse, o que seria se não existisse falsidade, ganância, inveja e mentira. “The New World” traz-nos uma história de amor impossível em tempos de descobrimentos, conquistas e guerras, mostra-nos o início do fim de uma civilização que, segundo Malick sabia viver melhor que a nossa sociedade actual.
Terrence Malick apresenta-nos o Capitão Smith como um homem agressivo, pensativo, observador, fascinado por aquele mundo onde abunda natureza, ar puro, tranquilidade e um sossego invejável. Smith parece ser um homem cheio de incertezas e em busca da sua própria definição como homem. Esta aventura vai defini-lo como ser humano, vai ajudá-lo a conhecer melhor as suas limitações, ambições e desejos. Fascinado por aquele “novo mundo”, Smith anseia construir uma civilização onde ninguém é pobre, onde não haja diferenças sociais, ganância, mentira e onde todos sejam iguais. Por isso, quando Pocahontas o salva e ele se depara com a vida dos índios, percebemos que Smith era capaz de abdicar das suas ambições em criar novas colónias e descobrir novas terras, em prol de uma vida sã, feliz, fiel, ao lado de Pocahontas, por quem se apaixona, naquele mundo sereno. Mas Smith é também, e acima de tudo, um homem confuso e céptico quanto à dádiva que parece ter recebido, o amor; o amor naquele mundo perfeito; o amor no paraíso.
Pocahontas é inteligente embora ingénua, pura, intrigada pelos visitantes. Apaixona-se por Smith e este amor é transposto para o ecrã como uma veneração de Pocahontas por Smith. Ela ensina-o a contemplar a natureza, a paz daquele mundo, aprende com ele a falar inglês e faz de tudo para que esse amor tenha sucesso, para que Smith se adopte aquela vida ou que a leve com ele para o seu mundo. Percebemos que Pocahontas está disposta a abandonar o seu povo devido ao seu amor por Smith.
Mas Smith não está disposto a renunciar a uma vida próspera e a um futuro risonho que ele anseia no mundo dos descobrimentos, em prol de um amor que nem ele está consciente de que exista. Percebemos no fim do filme que Smith ainda a amava, sempre a amou e só aí ganhou consciência de tal facto, bem como Pocahontas há muito percebera que Smith abdicara do seu amor pela carreira, quando lhe pergunta: “Encontras-te a tua Índia John? Deves encontrá-la.”, como que a reprová-lo pela sua escolha, mas a incentivá-lo a que não desista, pois embora ainda o ame, ela encontrou alguém que a ama incondicionalmente, que a ensinou a amá-lo e que a faz feliz. Terrence Malick traz-nos uma história de amor tão intensa e infeliz só superada pelo trágico Romeu e Julieta. “The New World” é uma obra-prima toda ela recheada de simplicidade. A banda sonora está constantemente em concordância com o filme, quando nos momentos mais belos e poéticos da obra em que a natureza e o crescimento do amor das duas personagens centrais do filme se misturam com temas musicais de Mozart e de Wagner. É um filme lindo, poético, filosófico e romântico. É, na minha opinião, uma das melhores obras cinematográficas deste novo século.

2 de fevereiro de 2009

The Wrestler



Esta mais recente obra de Aronofsky é uma das grandes injustiças da edição dos Óscares deste ano, mas não é surpresa a Academia de Hollywood ignorar um filme como “The Wrestler”, pois é uma produção independente e a violência que perfaz todo o filme nunca agradou a Hollywood.
“The Wrestler” traz-nos uma análise minuciosa do mundo do Wrestling. Mostra-nos a violência que todo o espectáculo acarreta, o companheirismo entre os lutadores, os movimentos combinados, a auto-flagelação em prol do espectáculo, enfim, mostra-nos os bastidores do Wrestling. Aronofsky traz-nos a história de Randy Robinson (The Ram) (Mickey Rourke), uma estrela do Wrestling, que vinte anos após o seu auge como lutador profissional luta agora em lugares de baixa categoria. Embora o seu auge tenha passado, The Ram continua a ser um ídolo para os fãs do Wrestling, desde crianças a adultos e para os seus companheiros que o vêem como um professor ou mestre entre eles. Aronofsky retrata-nos o submundo da luta livre americana de forma soberba. The Wrestler oscila entre o espectáculo da luta livre americana e a personalidade de um lutador, que já em decadência tem um ataque cardíaco que dita o seu afastamento da única coisa que sabe e quer fazer. Aronofsky mostra-nos os truques, os segredos, os podres do Wrestling, enquanto nos conta a história de Randy fora desse mundo que ele tanto gosta. É aqui que o filme se expande psicologicamente, com Rourke a encarnar na perfeição um homem solitário, não só pelas circunstâncias da vida, mas também pelas suas próprias escolhas. Aronofsky pretende nos mostrar, e penso que não é para generalizar, a incompatibilidade do Wrestling para com uma vida estável emocional e familiar. Por outro lado, quando o inevitável chega, e por inevitável refiro-me ao ter que abandonar o ringue, este homem solitário e desajeitado tenta reconstruir relações que outrora não se preocupou em sustentar, neste caso a relação com a sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood). E quando este tentar de aproximação e reconquista da relação pai/filha que há muito se perdera falha, esta alma errante que Aronofsky nos tenta fazer crer que apesar de querer construir; aqui com a stripper Cassidy (Marisa Tomei); e reconstruir relações emocionais e familiares que tragam algum sentido à sua vida após a dura realidade do abandono, quando toda esta manobra de substituição daquilo que realmente fazia sentido na sua vida falha, este escolhe arriscar/sacrificar a vida em prol de um estado psicológico que lhe traga algum conforto emocional e prazer físico. Ou seja, o wrestling era na sua essência aquilo que o definia e o fazia estar bem consigo próprio, na realidade era a sua própria vida. Privado do Wrestling, Randy desespera e tenta compensar com o tempo perdido, com relações que nem ele próprio acredita terem sucesso. Por isso, num pequeno/grande esforço no reaproximar da filha que lhe traz esperanças num futuro radioso, mesmo sem poder lutar, após esse esforço com sucesso Randy perde-se no seu mundo e perde mais uma vez a oportunidade de concretizar esse sonho duma relação saudável de pai e filha. É aqui que percebemos que este homem solitário, desajeitado e perdido (após deixar de lutar), não será nunca capaz de manter uma relação, apesar de a ansiar e procurar. É depois deste insucesso em criar laços com a filha, que Randy tenta mais uma vez estabilizar a vida, desta vez profissionalmente, quando arranja um trabalho num supermercado. Mas, tal como nas relações em que não consegue mantê-las, também aqui Randy mostra que não consegue aguentar uma vida normal. Aronofsky cria aqui o momento perfeito para nos definir a essência e a personalidade de Randy, quando um homem o reconhece no supermercado e ele nega a sua identidade. Aqui, ao interiorizar que ainda é um ídolo do wrestling para muita gente, Randy simplesmente desiste de tentar ser mais um “Zé-ninguém” trabalhador de um super-mercado. É aqui que percebemos que Randy gosta de ser um ídolo, que gosta de ser conhecido e de ser famoso. Quando percebe que mesmo noutra profissão ainda é reconhecido, questiona-se o que faz ali, reconhece apesar da tentativa em contrário que o seu lugar é na luta livre, que isso é a sua vida e que sem o wrestling não vale a pena viver. Descobrimos assim que, a sua paixão pela luta e por aquele estilo de vida era mais forte do que qualquer relação, amorosa ou familiar. Penso até que essa paixão pela luta era mais forte que ele próprio.
Este é um filme com uma grande carga emocional, violento, cru e realista. O argumento de Robert Siegel é muito bom e a prova disso é ser um dos pontos fortes do filme, bem como a fotografia, a realização de Aronofsky e as interpretações de Mickey Rourke e de Marisa Tomei, ambos nomeados para o Óscar de Melhor Actor e Melhor Actriz Secundária, respectivamente. Este The Wrestler é para mim um dos melhores filmes do ano de 2008 a par de Gomorra e The Curious Case of Benjamin Button, sendo assim necessário expressar aqui o meu desagrado à sua ausência na categoria de Melhor Filme e Melhor Realizador na Academia de Hollywood.