31 de dezembro de 2009

Juno (2007)


















O que mais admiro em Juno é aquela inocência, aquela forma de lidar com o mundo, aquela sensibilidade que apresenta. E Ellen Page está brilhante.

Sjecas li se, Dolly Bell (1981)


Sabes de que filme me lembrei hoje?
Não! Diz lá.
Do Lembras-te de Dolly Bell do Kusturica. O primeiro grande sucesso dele.
Ai foi? E quê?
Lembrei-me. Sei lá, é um filme muito humano percebes?
Humano? Mas humano em que sentido?
Ó pá, como hei-de explicar… humano no sentido de ressalvar a condição humana, o espírito humano, percebes? A sensação com que fico cada vez que vejo o filme é que Kusturica não quis fazer um filme contra o regime comunista jugoslavo, entendes? Eu acho que, embora seja visível essa procura da decadência social e económica, Kusturica prefere exaltar a condição humana (se bem que esta está adjacente ao factor social e económico) e principalmente o espírito humano, o espírito do Dino sobretudo…
Sim, mas continua a ser um filme político, um filme que pretende enaltecer o povo bósnio acima de tudo. Continua a ser um filme muito nacionalista. Acho eu.
Sim, continua a ser um filme político, como o é o Underground e o When Father Was Away On Business. Mas acho que a condição humana e essencialmente o espírito humano, a determinação, são tudo valores que Kusturica quer enaltecer. O Dino é tipo um pequeno herói, percebes? É à partida como nós, espectador do “caos” social e económico em que vive, mas pequeno herói porque ele vai superando as dificuldades. Olha, repara que o pai está em fase terminal com um cancro e, economicamente, o pai é a razão da subsistência daquela casa, ele apaixona-se pela Dolly Bell, a prostituta, vira-se contra o “máfias” lá da zona e toca na banda. Ou seja, ele faz um percurso normalíssimo de um adolescente inserido num mundo daqueles, mas sobrevive, não entra em mundos obscuros percebes?
Então, no fundo é uma história de um adolescente que serve o propósito do filme?
Também mas não só. É claro que é um filme político, não tanto como se diz, mas é-o. E nacionalista. Mas é sobretudo um manifesto da condição humana e do espírito humano, é essencialmente a história e a sátira de um adolescente que aprende a ser homem.

Domicile Conjugal (1970)

Um filme de François Truffaut








Domicile Conjugal tem uma das melhores sequências iniciais que vi em toda a minha vida. A primeira vez que vi este filme fiquei completamente maravilhado com aquele plano-sequência inicial. É extraordinariamente bem filmado, bem conseguido e revelador do grande âmago da obra. O desejo. E todo o filme de Truffaut se resume a isso, ao desejo. Domicile Conjugal é um filme leve, tipicamente nouvelle vague embora mais comercial. A traição vem resultante do desejo. E se o plano inicial são as pernas de Christine, quando Antoine se interessa pela chinesa temos outro plano de pernas, este das pernas da chinesa. E esses planos de que falo são a mais pura metáfora do desejo sexual do homem, umas pernas bonitas. E a traição resulta desse desejo. E desse desejo surge a separação, o desinteresse na mulher, a impaciência em tentar não destruir o casamento, o tédio com a nova companheira. Sim, esse desejo acarreta muita coisa. E aliado ao desejo está a curiosidade. Sim, porque embora o desejo fale mais alto, a curiosidade em se envolver com uma chinesa (povo diferente, etnia inclusive) também tem a sua força no desfecho resultante. Portanto, Truffaut explora esse desejo. E explora também o início e o fim do desejo. Ou seja, Truffaut expõe claramente a diferença entre o amor e o desejo. O amor/Christine e o desejo/a chinesa. E Truffaut louva o amor, faz dele um sentimento mais nobre. E, de facto, assim o é.

30 de dezembro de 2009

Career Girls (1996)

Um filme de Mike Leigh





Mike Leigh é o cineasta que mais se apoia na construção das personagens, que mais valor dá às interpretações. Basta ver a excelente interpretação de Sally Hawkins em Happy-Go-Lucky ou a interpretação de David Thewlis no Naked para ver o quanto a interpretação pesa para Mike Leigh. Greenaway é outro que aposta sobretudo na construção das personagens. Mas Greenaway é mais rude, mais barroco. Leigh tornou-se mais lírico, mais sensacionalista, mais artificial. Mas os primeiros trabalhos de Leigh distanciam-se e bem da recente filosofia cinéfila actual do inglês. Carrer Girls (Raparigas de Sucesso) é um deles. Um filme cru, um filme minimalista, um filme social. Digo social como estereótipo de Leigh, como temática constante em quase todas as obras do inglês. Mas Leigh continua ainda agora cinzento, descrente de uma melhoria social. Continua sobretudo obcecado pela classe média, pelos pormenores do dia-a-dia, pelos pequenos problemas do ser humano. E Carrer Girls faz parte talvez, juntamente com Secrets & Lies e Naked, do grupo dos melhores filmes de Leigh. E por muito que a interpretação de Hawkins em Happy-Go-Lucky seja brilhante, as interpretações de Katrin Cartlidge e de Lynda Steadman neste Career Girls não se ficam atrás. E Leigh faz um filme nostálgico. Mas a sua nostalgia é fria, é cheia de inseguranças, de arrependimentos e dúvidas. É uma nostalgia cinzenta, como o são quase todos os filmes de Leigh. Career Girls é sobretudo uma ode à amizade, uma história do reencontro, do avivar memórias. A nostalgia de Leigh.

29 de dezembro de 2009

We Own The Night (2007)


Há tempos vi o We Own The Night do Gray.
Foi, e que achaste?
Sei lá… o Two Lovers é melhor, mais maduro. Há algo ali que não deixa o filme extravasar, percebes? É como um arquitecto que por mais habilidade que tenha nunca chega a pintor. Entendes?
Mais ou menos. Mas porque dizes isso?
Ó pá, eu gostei do filme. A sério que gostei. A luz, as sombras, a câmara… o Two Lovers vem a dar seguimento a este nesse aspecto. Tanto num como no outro ele filma magistralmente a noite. Mas falta ali algo, falta mais vida, mais paixão. Não sei se me estou a fazer entender. É estranho mas sinto que o Two Lovers conseguiu o que o We Own The Night não alcançou. São os dois classicistas mas o We Own The Night perde-se na história, perde-se na moralidade americana. Não consigo olhar para o filme sem lembrar da hegemonia americana. Já te confundi não?
Um bocado, mas sei onde queres chegar. Presumo que te refiras ao facto de ser um filme policial, um pouco de Cop Land misturado com The Departed não?
Visto assim… nem tinha pensado no The Departed mas o Cop Land é visível por demais. Sim, é essa historiazinha de polícias que me decepciona. Mas o filme em si é óptimo. Gray é muito americano, muito classicista na maneira de filmar, no ambiente, nas sombras. Há algo de Ford e de Ray em Gray. É surpreendente. Mas a história não me convence.
Mas tens de admitir que a história está bem construída mesmo não gostando do tema.
Sim. Bem, este e o Two Lovers beneficiam disso, dessa condução narrativa de Gray. E depois, os planos. Mas falta-lhe algo, falta-lhe mais carisma percebes? Falta uma identidade mais forte, falta o distanciamento de Hollywood que Gray não quer perder. Sei lá. É bom mas podia ser melhor, tinha potencial para ser melhor mas perde-se, pára ali. Não sei como explicar.

28 de dezembro de 2009
















































Pois, eu sei... passei-me.