31 de maio de 2010

Le Silence de Lorna (2008)





A Lorna podemos (e devemos) dar um estatuto de novo. Mas novo em estilo, em forma, enfim, um novo cinema. Porque Le Silence de Lorna distancia-se (bastante até) de tudo a que os Dardenne fizeram anteriormente. O que ficou foi o sentido neo-realista do cinema dos belgas, a vertente social a que os irmãos Dardenne recorrem em todos os seus filmes, a humanização/desumanização desmesurada dos seus personagens. De resto, Lorna é novo, é pior. A aproximação ao Dogma desapareceu, a proximidade da câmara ao personagem, a forma de o seguir, o ritmo acelerado, tudo o que definia visualmente e artisticamente o cinema dos Dardenne foi em Lorna abandonado. Não é mau filme, mas espero bem que tenha sido só uma experiência dos belgas.

Os Meus Posters de Cinema XVIII

Rope de Alfred Hitchcock


30 de maio de 2010

29 de maio de 2010

Sobre Cheyenne Autumn interessa ainda destacar a forma como Ford retracta um povo decadente e devastado. Além de toda a grandeza do seu cinema que está tão presente aqui como em quase todas as suas obras, além dessa forma brilhante de filmar (e Cheyenne está repleto de planos fenomenais, de enquadramentos assombrosos), a forma de Ford criticar o homem branco/novo americano é o que mais interessa aqui. A crítica mordaz ao início de uma sociedade regida pelo poder, pelas injustiças. Mais importante do que qualquer forma assombrosa e brilhante de filmar, mais importante do que toda a beleza do seu Monument Valley é o relato de algo que ocorreu, a forma como os cheyennes foram tratados, despejados numa reserva sem comida e cheios de promessas falsas, a forma como foram perseguidos e assassinados numa feroz tentativa de não chegarem a casa. Porque, no final de contas, tudo o que estes cheyennes queriam era voltar a casa e viver na sua terra em paz. Cheyenne Autumn é o épico dos índios.

Cheyenne Autumn (1964)





IN "Cheyenne Autumn," which opened at the Capitol last night, John Ford, that old master of the Western, has come up with an epic frontier film. It is a beautiful and powerful motion picture that stunningly combines a profound and passionate story of mistreatment of American Indians with some of the most magnificent and energetic cavalry-and-Indian lore ever put upon the screen.

It is based on an actual event—a footnote to history, as they say—when a small tribe of Northern Cheyenne Indians that had been deceitfully transplanted from their ancient area in the Yellowstone River country to a bleak and barren area in the southwest, decided they had had enough of the white man's evasions and broken promises and, in 1878, sick and starving, started a painful trek back to their homeland, 1,500 miles away.

But it is more than a footnote in this picture, which Mr. Ford has endowed with the kind of atmospheric authenticity and dramatic vitality that he so brilliantly achieves, when in top form. It is a stark and eye-opening symbolization of a shameful tendency that has prevailed in our national life—the tendency to be unjust and heartless to weaker peoples who get in the way of manifest destiny.

On a huge screen (Super-Panavision 70) and in color that does full justice to the awesome beauty of Monument Valley and other desert and hill country of the southwest, Mr. Ford has spread a rumbling, throbbing drama of the stoicism and self-sufficiency of the Indian who is an alien in his own country, of the meanness and perfidy of the whites and of the compassion and heroism of some good people who try to see that justice is done.

Opening on a scene of the Indians coming across the desert at dawn to await a Congressional delegation that, characteristically, never arrives, Mr. Ford and his screenwriter, James Webb, trace the toils and tribulationss of the tribe as it doggedly moves towards its homeland, pursued by a troop of cavalry assigned to return it to the southwest but led by a captain who has no stomach for that job.

There is poetry in the graphic comprehension—in a scene of the Indians at dawn, wrapped in their Government blankets, their chiefs standing stalwart and strong; in scenes of the cavalry wheeling and thrashing in skirmishes with the tribe. And there is tragic and epic grandeur in the enactment of the whole exodus theme.

Along toward the middle of the picture there comes an odd and disconcerting break, which initially makes one wonder whether Mr. Ford has suddenly and frivolously abandoned the Cheyennes. In a switch to a barroom in Dodge City, he embarks on a lengthy, comic phase in the spirit of "The Man Who Shot Liberty Valance," one of his less brilliant films.

The gist of it is that a passel of Dodge City denizens, hearing that the Cheyennes are approaching, ride out into the country to see the fun, headed by Arthur Kennedy as Doc Halliday and James Stewart as Wyatt Earp. But like the elegant people of Washington who went out to watch the first battle of Bull Run, they flee in amazement and terror at the sight of a lone Cheyenne scout.

Although richly and roaringly comic, it seems entirely superfluous — until one senses that Mr. Ford is subtly mocking a familiar attitude in Western films. He is actually injecting a satiric estimation of the usual callous way the pathos and plight of the Indians are tossed off in favor of sheer clichés.

However, it must be acknowledged that the picture does not rise again to its early integrity and authenticity after this episode. There is a powerful dramatic incident with the Indians at a frontier fort, where they are tricked into imprisonment under a brutish alcoholic, whom Karl Malden plays extremely well. But the climax, with Carl Schurz interceding on behalf of the Indians after a hurried trip by the cavalry captain to Washington, is neither effective and convincing drama nor is it faithful to the novel of Mari Sandoz, on which the script is based.

Even so, "Cheyenne Autumn" is a strong film, grandly directed and expertly played by a large cast, which includes Richard Widmark as the humane cavalry captain; Victor Jory, Gilbert Roland and Ricardo Montalban as the chiefs of the Cheyenne tribe, Sal Mineo as a hot and head-strong brave, Dolores del Rio as a stoic Indian woman and even Carroll Baker as a Quaker schoolteacher who accompanies the displaced people on their desperate homeward trek. Also, William Clothier's spanning camera and Alex North's vibrant musical score merit particular mention in giving credit for this film.


Bosley Crowther, NY Times, December 24, 1964


28 de maio de 2010

Broken Flowers (2005)














Jarmusch já me tinha feito disto, surpreender-me. Mas, surpreendentemente (ou não), não pára de me surpreender.
Numa história onde as flores quebradas (leia-se Broken Flowers o título) não são as que Don leva às ex-namoradas mas sim as próprias namoradas (é fácil perceber esse sentido metafórico do título face ao filme), Broken Flowers revela-se um extraordinário exercício daquilo a que Jarmusch já nos habituou, a comédia negra e social. Acima de tudo, a desconstrução do personagem, a inclinação para o anti-herói a que Jarmusch recorre, a apatia desse personagem, o mistério do filho hipotético que no fim se revela utópico. Don Johnston, esse personagem ambíguo que dá vida a todo o filme, sisudo e descomprometido para com o mundo e as mulheres, encarnado por um Bill Murray assombroso (que me lembre só a sua interpretação em Lost in Translation se equipara a esta). Filme do caralho, capaz do ridículo e hilariante assim como do sensível. Maduro. E é indubitavelmente um dos melhores filmes de Jarmusch, independentemente de ter chegado ou não ao mainstream.

Out Of The Past (1947)









27 de maio de 2010

Red River (1948)





A Red River reivindique-se a capacidade inata com que se aproxima do épico, do western lírico a que Hawks é familiar. Desde John Wayne a Montgomery Clift, desde a música à fotografia, desde o argumento à realização, tudo é grandioso em Red River. E por isso, nada mais há que se possa dizer que não seja a de que Red River é um dos melhores westerns de sempre.

Mas o mais importante em Red River é toda a história que une Duston (Wayne) a Matt (Clift), a relação pai/filho que existe entre eles. E por mais que Duston entre numa espiral de tirania e que Matt o defronte, por mais que toda aquela demanda em direcção ao Missouri (que acaba no Kansas) traga cheiro a tragédia (ameaça de índios inclusive), essa relação que existe entre os dois é mais forte do que qualquer coisa que possa ocorrer (a pulseira da mãe de Duston que passa de mão em mão desde a sua amada até acabar na amada de Matt é a prova disso, o símbolo maior dessa ligação sentimental que os une). O repetir da história (os erros de Duston no passado em relação à sua amada são novamente cometidos no presente por Matt). É a natureza dessa relação afectuosa que molda tanto a personagem de Wayne como a de Clift, é isso que atribui a verdadeira essência de Red River. Toda a poesia que transporta desde aquela despedida inicial de Wayne à sua amada até à redenção final.

26 de maio de 2010

Se o tivesse aqui via-o já!

Cidade Baixa (2005)






Sergeant Rutledge (1960)







It's because the Ninth Cavalry was my home, my real freedom, and my self respect. And the way I was deserting it, I was nothing but a swamp-running nigger! And I ain't that! I'm a 'man'!

Em Sergeant Rutledge, Ford utiliza as sombras de forma assombrosa, magistral. Nunca antes uma sala do tribunal/corte marcial foi tão bem filmada e transposta para o grande ecrã como nos minutos iniciais deste Sergeant Rutledge. A passagem do presente para o passado, a matéria do presente que se dissolve naquele enegrecer repentino e se transforma no relato vivo do passado. Em causa a inocência de Rutledge.

Sergeant Rutledge trata de dignidade, de honra, de igualdade racial. Racismo como temática central do filme, racismo como grande preocupação de Ford. Não é á toa que a nona cavalaria é quase toda ela composta por negros. A visão de Ford estende-se a um humanismo poético e a uma mitificação de Rutledge (ligação directa com o Capitão Búfalo). A liberdade dos outrora (?) oprimidos nessa sociedade americana da época, a voz do homem negro que se ergue contra as acusações contra si feitas mas que continua fiel, que recusa revoltas raciais.
We ain't fighting the white man's war. We're fighting to make us proud.