30 de setembro de 2010

El Cielo la Tierra y la Lluvia (2008)










Quando se sabe filmar a história é outra e este El Cielo la Tierra y la Lluvia é a prova disso. Há filmes bons e filmes maus, mas os que realmente interessam são os grandes filmes e as obras-primas como é o caso desta preciosidade chilena. E não é preciso 3D nem efeitos especiais. O que é preciso é saber o que se faz e fazer com o coração e não a pensar na merda do dinheiro que a merda do filme irá render. Desabafos, continuemos…

El Cielo la Tierra y la Lluvia é dos filmes mais bem filmados que já vi em toda a minha vida. Influência de Tarr é categórica (rodopios com a câmara em torno do personagem, o deslizamento da câmara, o filmar por trás o personagem a caminhar, a contemplação, o naturalismo, os próprios planos-sequência). Mas estende-se a Lisandro Alonso (no ritmo da narrativa, nos diálogos escassos, na desmesurada atenção que dirige para as mais insignificantes acções humanas, movimentos e expressões, o sentido rudimentar, a ausência de música como banda sonora comutada pelos ruídos dos movimentos humanos, pelos sons da natureza, pelos fechar e abrir portas e janelas, etc.) e a Angelopoulos (nos planos-sequência, nos travellings laterais que esticam o tempo e que observam, mais do que o personagem que seguem, os lugares por onde passa, na contemplação que tanto o grego como Tarr assumem nas suas obras). E portanto, por isso, estamos perante um filme magnificamente bem filmado. Porque, para além de adoptar um estilo contemplativo com os movimentos de câmara, ele contrapõe e alterna esses movimentos com planos estáticos e distantes lembrando Bartas. E planos fabulosos.

El Cielo la Tierra y la Lluvia é um filme cinzento. Tem cena num meio rural e a chuva é quase constante. Mas o que interessa em El Cielo la Tierra y la Lluvia é a humanização das personagens, é o encontro de duas almas solitárias que se complementam (e a morte da mãe inválida de Ana traz essa necessidade mais urgente em extinguir essa solidão, esse isolamento interior em que se protege). El Cielo la Tierra y la Lluvia é um filme enigmático (nunca chegamos a saber o que aconteceu a Marta, nem o porquê do seu comportamento), melancólico e ambíguo. Mas sobretudo humano e poético. Maravilha.

28 de setembro de 2010

Το βλέμμα του Οδυσσέα - O Olhar de Ulisses (1995)














Το βλέμμα του Οδυσσέα é mais do que um filme, é uma obra de arte, é a melancolia visitada pela nostalgia, a angústia do cineasta numa busca interior. História do cinema, de amor ao cinema. Ao rever O Olhar de Ulisses (primeiro filme de Angelopoulos que vi) relembrei não só uma das histórias mais fascinantes do cinema, como (além de ser o meu preferido dele) um dos melhores filmes do grego. Angelopoulos é um dos meus cineastas de eleição e este O Olhar de Ulisses é, para mim, uma das mais belas odes ao cinema.

Em causa estão três bobines não reveladas, material desaparecido e nunca antes visto, o primeiro filme dos irmãos Miltos e Yannakis Manakis. E, de igual modo, o primeiro da Grécia e dos Balcãs. O Olhar de Ulisses é a busca pelo primeiro olhar do cinema, a busca incessante do cineasta (Harvey Keitel numa interpretação assombrosa) que o faz incorrer numa viagem épica. Mas O Olhar de Ulisses é não só a busca por esse primeiro olhar mas também pela tranquilidade da alma, a serenidade do ser. E poético como nenhum outro cineasta ousou ser, como nenhum outro conseguiu ser. Sereno, melancólico, angustiante, lírico. A viagem (a mesma viagem que Angelopoulos faz em toda a sua filmografia) é uma odisseia como a de Homero. O regresso a casa (nem que seja temporário) na procura desse primeiro olhar sobre um novo século (passado), o primeiro olhar sobre o povo grego e dos Balcãs. E Angelopoulos faz não só um filme poético (em todos os sentidos) como um filme político. Sim, tudo o que vi do grego consegue comportar esses dois elementos, o político e a poesia. E a desolação (aqui não só da Grécia como dos Balcãs) presente pelos lugares que o cineasta passa, a destruição duma guerra.

Já falei muito de Angelopoulos e Το βλέμμα του Οδυσσέα não foge à regra de tudo o resto. Moroso, contemplativo, o sentido onírico e a nostalgia que se confundem com a realidade. A beleza dos planos-sequência, os enquadramentos de câmara, a poesia não só das palavras como das imagens, a música de Karaindrou, o existencialismo, a desumanização do ser humano. Obra-prima.

26 de setembro de 2010

23 de setembro de 2010

Whisky (2004)

Em Whisky, à partida, o que nos interessa é a solidão e o vazio daquela gente, a distância e a desmesurada formalidade no comportamento e relações pessoais entre eles. O próprio Jacobo comporta-se de forma distante e seca com o irmão. Sim, é isso que interessa em Whisky, a formalidade daqueles dois seres (Jacobo e Marta), a solidão deles, a infelicidade. Porque tanto um como o outro são seres similares, porque além de se perceber que Marta gosta de Jacobo, tanto um como o outro padecem do mesmo mal, a solidão e a tristeza do tempo perdido. E Jacobo arranja aquele “embuste” para tentar mostrar uma felicidade que não existe, revelando assim vergonha pela sua própria vida. Mário Jorge Torres falava num humor negro que, além de negro, é leve e simples. Porque Whisky é pautado pelos silêncios constrangedores entre aquelas três pessoas, porque a frieza e a distância trazem também um lado humano ao filme. Whisky é um pequeno grande filme.

A propósito de The Perfect Storm

Ontem revi The Perfect Storm e o que me irrita nestas americanadas nem é tanto o sentimentalismo em si mas sim a forma como o exploram. A utilização de uma música de fundo como forma de impulsionar as nossas emoções, o jogo de som/imagem usado claramente para isso, a dramatização (leia-se lamechice) típica neste cinema e que desde o princípio faz adivinhar a tragédia. E sempre com um ou dois romances à mistura para no fim apelar a que se verta uma lágrima com o pretensioso sentido de perda. Na verdade, não vejo grande diferença entre estes blockbusters e as novelas brasileiras.