18 de agosto de 2012

António Reis and Margarida Cordeiro aqui

16 de agosto de 2012

“Róża” dum tal de Wojciech Smarzowski (que depois de pesquisado se verifica que fez tantos filmes como telefilmes - três - ou seja, de desconfiar), é coisa negra e erosiva, sóbria e fria, nada das sensibilizações e das choradeiras e da abundância dos lugares-comuns do costume deste tipo de filmes (segunda guerra mundial, holocausto), coisas que recentemente vi no “In Darkness” por exemplo, é tudo longe disso, coisa caótica, intempestiva, coisa que irrompe das cinzas e da imensidão do tormento e da brutalidade do inferno da guerra e da desumanização, logo, portanto, coisa de martírios e de tragicidades e de pulsões intempestivas, tudo tão imensamente caótico e desumano numa guerra aberta (leia-se condenação) ao exército vermelho, coisa que brota da perda e da impiedade, imersão abismal na irascibilidade e nas atrocidades humanas, encontro de almas feridas e mutiladas pelo horror da guerra.

13 de agosto de 2012


"Brute Force" do Dassin às claras, muito às claras, é filme da cárcere e da fuga a ela, mas lá dentro bem dentro do seu íntimo nasce a sua intempestiva e imensa tensão que pasma e rompe com toda a brutalidade que traz no título e que implode na alma e no olhar dilacerados daqueles prisioneiros, coisa de tanta rigidez de disciplina para esconder a crueldade e a desumanidade, em vez de respeito anda-se com medo ao capitão lá do sítio, é filme da cárcere e da fuga ou do desejo a ela sim, mas mais importante é a forma e a negrura que acompanha os homens daquela cela e as suas histórias do passado, como do passado nasce o filme, duma tentativa falhada que o levou a uns quantos dias na solitária, percebemo-lo um pouco depois, é sempre o passado que é visitado, mais importante são as sombras do noir e da tensão que implode para no final estourar como estoura toda a claustrofobia do noir dentro daquelas celas e daquelas histórias daqueles homens, como estoura a moral e a ambiguidade dela no conflito pelo poder e pelo controlo do presídio.

10 de agosto de 2012

“Our Daily Bread” de King Vidor se não é, daqueles que vi, o seu melhor filme anda lá muito perto (até porque “Street Scene” ou “The Crowd” lhe podem roubar esse estatuto), coisa tão realista que ninguém quis produzir, sobrou ele, Vidor, a força de vontade e determinação e amor ao cinema, por isso o filme se fez, sem lucros, história dele e da mulher diálogos de Mankiewicz, produzido pelo próprio Vidor, projecto pessoal, filme inserido numa época, numa temática, num propósito, coisa sobre a depressão americana ou o pós dela, coisa que só por si ensinaria muito ladrão governamental de que a crise se ultrapassa com a terra, com a produção e não com importação e austeridades absurdas, capitalismo é o veneno da economia e do mundo… humanista tanto quanto os mais humanistas de Ford, humildade e sinceridade, filme sobre a simplicidade e a honestidade, coisa sobre a comunidade como quase todos os de Ford o são, a entreajuda, não à ganância e ao individualismo, coisa de sacrifícios e altruísmos, trabalho e suor, brutalidade da sobrevivência e a luta pelo futuro, coisa da terra e do trabalhar a terra, amizade, o realismo de Vidor.

Se é verdade que “Our Daily Bread” é um filme político (sim é verdade), é ainda mais verdade que dentro de toda a politiquice que se lhe possa atribuir existe uma utopia e uma consciência social que ultrapassa essa vertente comunista ou de esquerda. Como diria um bispo qualquer (que me escapa o nome) à tempos num telejornal nacional, se defender os pobres é ser comunista então sou comunista. “Our Daily Bread” é uma proclamação utópica do colectivismo ou do comunitarismo como aproveitamento social de cada individuo num todo, ou seja, Vidor dá a todo e qualquer indivíduo um papel na sociedade, rejeita o individualismo assim como o capitalismo (ou condena-o) indicando-o como o causador da depressão. A negrura da crise e do desemprego/do capitalismo esmorece face à luz da esperança e do suor da lavoura e do colectivismo/comunismo.

9 de agosto de 2012

O último filme de Yimou é a consagração (e isto depois de muitos dos seus últimos filmes pouco ou nada serem melhores que este “Jin líng shí san chai”) de que o cineasta chinês que outrora fez portentos como “Milho Vermelho“ ou “Viver” ou “A Tríade de Xangai” é agora mais um dos que vive na sombra do passado (cada vez mais me faz lembrar o mísero Ridley Scott, até pela mania dos épicos que tanto um como o outro mostram) para se entregar às grandes produções tais quais as hollywoodescas que impugnam e envenenam o cinema. Tal como diz aqui o Carlos Natálio, Yimou usa e abusa do slow motion para dar espectáculo (coisa de circo e de videojogos tal e qual o “Inception” do Nolan), imerge no apelo à sensibilização sentimental da choradeira (pior, muito pior, que o Spielberg) com a historiazinha do sofrimento das virgens do colégio católico e das putas que no fim as salvam em pleno caos total da guerra, nos facilitismos narrativos e visuais que tudo desprezam, nos floreados e na mentira de tudo isto - cinema não é isto, é muito mais que isto, tudo mais que isto -, falsidades de todas as formas, embelezamentos híper-rotulados e usados e coisas de tão mau gosto que tudo destroem. Ah Yimou como eras e como te puseste…

5 de agosto de 2012


“Wagon Master” de 50 deve ser das coisas mais bíblicas de Ford que me lembre, tanto quanto outro grandioso dele, também esse tão bíblico quanto os mais bíblicos do De Mille, “3 Godfathers”de 48. “Wagon Master”, para Ford o mais puro e o mais simples dos seus westerns, é coisa onde a justeza e a seriedade e a honradez tudo são para aqueles dois cowboys e para aquele pastor outrora pecador, eles vendem cavalos enquanto o pastor dos mórmons anda com a sua “legião” em busca da sua (e da deles) terra prometida. Mas a viagem para a tal terra prometida, coisa que agrada aos tais dois cowboys porque há uma certa dama que lhe encanta a vista a um deles e por isso aceitam a proposta do tal pastor de os guiar (aos mórmons) pelo deserto rumo ao tal paraíso ansiado, a viagem que percorre o seu Monument Valley vai ser mortificada como é de esperar num filme de cowboys onde os índios também lá andam mas onde o grande inimigo são os fora-da-lei que tal usurpadores comem e bebem e se abrigam à pala dos tais mórmons para depois, sem gratidão e sim com cólera e ódio, os tais cowboys fugidos à lei aniquilarem toda a paz e toda a tranquilidade daquela gente, qualquer coisa como o irromper das impetuosidades e das irascibilidades daqueles criminosos, coisa que até ao final imerge nas hesitações e no medo daquela gente abalroada pelos tais foras-da-lei.